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24 jul

Ocupação afetiva da cozinha (relatório primeira versão na íntegra) Artigos /

 

Ocupação afetiva da cozinha

 

Tipo de atividade:Permanente Período de execução:Outubro, novembro e dezembro de 2014. Local:Espaço Propulsão e Território

 

Início da caminhada

 

O que é chamado hoje de “ocupação afetiva da cozinha” nasce na própria cozinha, num café da manha em fevereiro de 2014, entre trabalhadores da equipe do Propulsão. A cozinha do Propulsão é um lugar privilegiado, grande, pia de inox, geladeira, mesa para 6 pessoas e espaço para umas 20. Estavam instalados um fogão de quatro bocas e uma geladeira. Uma semana depois a assistente social apresenta um projeto piloto para uma oficina de culinária que seria executado uma vez por semana durante dois meses no período da tarde dentro da perspectiva de atividades em grupo no Espaço Propulsão. As primeiras receitas já estavam pensadas: pão, bolo, nega maluca, pastel, sonho. Deu certo, e foi assim durante o primeiro semestre com um intervalo entre julho a setembro devido a reconfigurações na equipe. Em outubro retomamos a oficina levando em consideração avaliação formais e informais dos jovens sobre, por exemplo, o que gostariam de preparar nas oficinas, lasanha e churrasco foram algumas das sugestões. Assim iniciamos em outubro a nova etapa da atividade levando em consideração outras possibilidades e desdobramentos para uma atividade que avaliamos com muito potencial e que poderia contemplar outras diretrizes do projeto como: família, território e outras instituições. Num futuro imagina-se que é uma experiência que pode contemplar, inclusive, geração de renda, economia solidaria ou formação profissional.

Abaixo, ideias que nortearam a pratica até o momento, avaliações, algumas considerações e desejos.

 

Planejamento inicial.

 

Culinária

 

Intervenção Visual

 

Cine Clube

Preparar receitas sugeridas pelos jovens definidas previamente em conversas informais ou momentos em grupos.

 

Preparar os pratos seguindo orientações do\da jovem proponente da receita, facilitando para que se possível, o mesmo oriente os demais jovens participantes no passo a passo do preparo.

 

Educador e ambiência devem, preferencialmente, discutir a receita antecipadamente para alinhar ações durante o preparo, assim como “preparar” o ambiente para as histórias pessoais inerentes a cada receita.

 

Proporcionar o preparo de alguma receita experimentada nesse período para um encontro familiar.

 

Fechar parceria com curso de culinária da PUC para uma visita ou aula experimental. Fechar parceria com algum restaurante ou escola de culinária para visita ou aula experimental. Visitar um assentamento ou uma pequena propriedade que produza alimentos.

 

 Assim como a culinária tende a resgatar sabores e momentos importantes para o jovem, a produção de imagem nesse caso pretende resgatar e imprimir em suportes diversos as experiências visuais já presentes nos repertórios dos jovens, assim como colaborar na produção e ressignificação de novas experiências.

 

Tentar incluir na produção ou tratamento de imagens, algum vestígio das relações familiares, fotos, mapas, reprodução de desenhos de “lembranças”.

 

Produzir ou tratar imagens dos territórios ocupados ou não pelos jovens, a partir da memória ou da relação física com os espaços em “rolês” de bicicleta, a pé, passeios fotográficos, etc.

 

Pintura das paredes

Pintura as parede (parte superior) da cozinha utilizando técnica mista (estêncil, colagem, pintura a mão).

 

Customização das cadeiras

Produzir imagens focando no conceito de estamparia, viabilizar a impressão dessas imagens em tecido para customização das cadeiras.

 

Produção de adesivos

Desdobramento da produção de estampas, aqui, impressas em material adesivo para aplicação na geladeira e demais móveis da cozinha.

 

Propor a exibição de filmes que tratem de alguma forma de memória, lembrança, laços e que preferencialmente tratem de culinária ou que seja possível extrair o tema de algum momento do filme.

 

Execução

 

Culinária

 

Desde as primeiras conversas preparando o planejamento tínhamos certo que a culinária não teria perfil de escola ou aula de culinária, mesmo porque não há na equipe nenhum técnico da área e assim foi possível aprender e errar junto com os jovens, mas não queimamos o arroz uma vez se quer.

Formam preparadas receitas que faziam parte do dia-a-dia dos jovens, receitas que foram provadas uma única vez ou que nunca haviam sido preparadas. Receitas da vó que mora no interior, receitas que a mãe faz quando esta de bom humor, receitas que o pai costuma fazer aos domingos e feriados e receitas que lembram a terra natal.

Todas as receitas seguiram certa ordem para a execução. Conversamos antecipadamente com os jovens perguntando-lhes coisas do tipo: “Se você pudesse pedir para alguém preparar uma refeição para você o que seria?”. Com o prato nomeado combinávamos a execução para uma quarta feita próxima. No dia combinado com a lista de ingredientes partíamos para o supermercado mais próximo para as compras enquanto o responsável pela ambiência preparava a cozinha. No momento o responsável por executar diretamente as receitas é um dos educadores e na retaguarda, por assim dizer, esta a psicóloga no papel que chamamos de ambiência. De forma geral e resumida a ambiência cuida do entorno das atividades, mas está livre para interagir diretamente no preparo da receita ou até substituir, como aconteceu, o educador quando foi preciso.

A atuação do educador e ambiência precisou ser alinhada em vários momentos para que evitássemos mesmo que de forma sutil que impuséssemos técnicas de preparo ou ingredientes que julgássemos melhores ou mais adequados para o preparo.

Uma baita aula de desapego:

– Não precisa quebrar o macarrão para cozinhar!

– Mas minha mãe faz assim.

            Por outro lado também tínhamos de seguir orientações pouco precisas sobre o preparo completando as lacunas com internet ou repertório pessoal, mas continua sendo objetivo executar as receitas orientadas por detalhes, que contenham vestígios das relações afetivas que os permeiam.

Ficou evidente também nesse período a necessidade e a importância de nos aproximarmos cada vez mais da família, como ficou marcado em nosso encontro de família. Um dia impar, encontro de família simultâneo a uma oficina de culinária fechando a manha com o almoço, foi demais. Uma das famílias veio completa inclusive com um bebe de dois anos que ficou no espaço de colo em colo enquanto as atividades se desenrolavam. Também teve pai que orientou o preparo da receita com macetes importantíssimos, mãe que revelou que o filho não come cebola, uma surpresa para a equipe já que o mesmo jovem se tornou o “picador de cebola” oficial e nunca deixou de comer por conta da cebola. Houve outros relatos como: “em casa não frita nem um ovo”, “em casa não lava um copo”, “chegou em casa pedindo pra fazer lasanha”, “que história é essa de camarão da moranga, ele fala nisso toda hora”. Pensamos em ativar memórias afetivas, mas também geral outras.

Tem muito trabalho a ser feito e é um desejo que o processo caminhe para a autonomia. Que tenhamos num futuro bem próximo, jovens que consigam preparar uma receita, um trabalho, um estudo, uma amizade, um amor e se deliciar com ele.

 

                Abaixo, uma-a-uma as receitas executadas:

                           

15 de outubro      Estrogonofe de carne                   Receita do L

Primeira receita executada dentro na nova proposta da culinária. Nesse caso o jovem que propôs a receita não almoçou com o grupo, ficamos sabendo mais tarde (de acordo com a mãe) que o jovem ficou com vergonha de se sentar a mesa. Essa é uma receita feita, raramente, pela mãe do jovem aos domingos foi revelada perguntando ao jovem o que, se ele tivesse oportunidade, pediria a mãe para cozinhar.

 

29 de outubro      Macarrão com almondegas         Receita do LE

Para essa receita foi necessário buscarmos na internet, baseada na descrição visual do jovem sobre o prato já que o mesmo não se lembrava do nome da receita. Ele havia comido uma única vez, feita pelo pai, que de acordo com o jovem é um ótimo cozinheiro.

 

22 de outubro      Macarrão de Domingo                   Receita do I

Essa receita também faz referencia aos almoços familiares de domingo, com destaque para a maionese que de acordo com o jovem é caseira. Assim foi feita, de forma caseira seguindo as orientações que o jovem guardava de memória. Como é muito comum acontecer com maioneses caseiras, ela “desandou”. Foi recuperada pela educadora que compartilhou técnicas também maternas para isso.

 

29 de outubro      Arroz carreteiro                                               Receita do Diego (equipe)

Essa receita substituiu de última hora a receita a ser executada no dia. Uma sugestão do coordenador pedagógico que foi acolhida pelo grupo no dia.

 

12 de novembro Lasanha da Galera                         Sugestão Coletiva

Essa receita também foi decidida no dia já que a jovem que executaria sua receita não compareceu. Junto com o estrogonofe parece que a lasanha é uma escolha sem erro. Ao perguntar-nos ao grupo que receita substituiria a prevista para o dia a escolha da lasanha foi quase unânime.

 

19 de novembro Arroz de forno                                  Receita da R

A Jovem proponente da receita, apesar do convívio urbano, tem memórias da sua convivência com a vó no interior do estado de Santa Catarina. O arroz de forno da vó já era citado em conversas informais antes de iniciarmos a nova etapa da culinária. Segundo a jovem, a receita não ficou tão boa quanto à da vó, mas ficou uma “delícia” e que na próxima visita iria perguntar a vó qual o “segredo da receita”.

 

27 de novembro Macarrão com salsicha                 Receita do H

A escolha da receita foi rápida e precisa. É o prato que ele pede a mão para fazer sempre que possível, não tem hora nem dia certo. Essa receita foi tão bem aceita pelos jovens que tivemos relatos de tentativa de reprodução da receita em casa para a família.

 

03 de dezembro Panquecas e Pavê                          Receita do Guilherme

Não houve duvidas ao sugerir panquecas, mesmo questionado sobre se haveria tempo hábil para finalizar a receita. Com cálculos rápidos usando os dedos disse que sim, bastaria mais uma frigideira (só temos uma no Propulsão). Destaque para a desenvoltura do jovem em escrever a receita, de memória, no quadro branco usado na culinária. Também deixou claro que faria um pavê. Na execução da receita lembrou o comportamento de “chefe”, delegando funções e orientando equipe e jovens no preparo dos pratos. Mais tarde ficamos sabendo que seu pai é muito habilidoso na cozinha que o jovem também já trabalhou na cozinha de uma das instituições que passou.

 

06 de dezembro Camarão na moranga                    Receita da K

Receita executada num dia especial, durante um encontro de família. Encontros de famílias e atendimentos a familiares estão previstos no projeto sendo um dos eixos norteadores além do atendimento aos jovens e instituições. Nesse dia executamos simultaneamente o encontro com os familiares e a culinária. Enquanto parte da equipe participava de uma roda de conversas com familiares os jovens acompanhados por educadores, preparavam o almoço que encerraria a manha de confraternização realizada num sábado ensolarado. Pelas falas, ninguém do grupo, jovens ou familiares, havia provado o famoso camarão na moranga. Apenas a jovem proponente conhecia o prato, de restaurante, de sua terra natal, Pernambuco. Durante o preparo tivemos varias dicas e prosas com os pais, como o do Guilherme, que sugeriu colocar miolo de pão embaixo da moranga que havia furado para evitar que vazasse. Do mais, também erramos um pouco na quantidade de arroz que aparentemente foi pouco visto as panelas raspadas em pouco tempo.

 

10 de dezembro Arroz carreteiro                                               Receita da equipe

Almoço de enceramento da atividade de culinária. Foram convidados trabalhadores de vários setores do Grupo Marista. Almoçaram conosco nesse dia mais de 30 pessoas. A escolha do cardápio foi feita pela equipe pensando num prato de fácil execução e baixo custo. No preparo envolveram-se além dos jovens e equipe, outros convidados voluntários como o pessoal do marketing. Destaque mais uma vez pra o Guilherme (das panquecas) que propôs e executou a sobremesa, Danoninho caseiro.

 

Intervenção Visual

O processo de intervenção visual no espaço propulsão já estava em andamento, tem estêncil, tem muro pintado tem móveis customizados, alguns quadros, mandalas e mascaras. O desejo era sofisticar a produção, utilizando os repertórios individuais e com os apreendidos pelos jovens durante o ano, traze-los para a cozinha dando volume para a proposta de ocupação afetiva.

A primeira etapa era a produção de estampas ou texturas visuais. Para isso utilizamos de outras atividades e passeios para compor o processo. Uma visita a PUC ou ao mercado municipal era feita com uma câmera fotográfica para que fossem registradas imagens que no julgamento dos jovens pudessem servir como inspiração para produções própria. Também estava em nosso radar utilizar a produção de imagens em locais da cozinha que tivessem potencial para que num futuro pudessem compor um projeto de geração de renda, como imãs de geladeira, adesivos e estamparia para revestimento das cadeiras.

Atualmente estamos na primeira etapa. Os jovens escolheram dentre as imagens registradas alguma que lhe interessou, produziu a partir dai outra imagem, alterando, modificando ou copiando. As imagens foram transformadas em estêncil e aplicadas em algumas paredes do espaço Propulsão diferentes da cozinha. Não ocupar a cozinha nesse momento teve alguns porquês, seja pelo não domínio da técnica ou por uma apropriação rasa do processo, na avaliação do educador.

Por outro lado, entendemos como importante dar mais visibilidade ou materializar a “ocupação afetiva da cozinha”. O meio escolhido foi um livro de receitas que além das receitas também comtemplasse as imagens produzidas para a intervenção na cozinha ou que ilustrassem as receitas. Para a produção do livro foi apresentado em uma oficina o modelo de Fanzine essa escolha sendo relevante pelo baixo custo de reprodução e permite outros processos manuais como costura-los manualmente.

Para a continuidade do projeto, fica o desejo de efetivar as propostas do planejamento inicial salvo qualquer cenário que nos faça olhar e caminhar para outra direção. Como temos feito.

 

Cine Clube

 

            O filme exibido nesse período foi “Estomago”

 

Sinopse (http://www.estomagoofilme.com.br)

Na vida há os que devoram e os que são devorados. Raimundo Nonato, nosso protagonista, descobre um caminho à parte: ele cozinha. E é nas cozinhas de um boteco, de um restaurante italiano e de uma prisão – o que ele fez para acabar ali? – que Nonato vive sua intrigante história. E também aprende as regras da sociedade dos que devoram ou são devorados. Regras que ele usa a seu favor, porque mesmo os cozinheiros têm direito a comer sua parte – e eles sabem, mais do que ninguém, qual é a parte melhor.

Uma fábula nada infantil sobre o poder, o sexo e a culinária.

 

Ao final de uma das exibições (que foram duas) um dos jovens logo se interessou em perguntar se era mesmo verdade que as garotas se interessavam em jovens que sabem cozinhar e se era mesmo possível conquistar alguém pelo “estômago”. Também houve interesse pelo tal do alecrim, tempero que aparece no filme. Na execução da receita após a exibição do filme foi usado alecrim para temperar o frango que fazia parte da receita, muitos não gostaram do cheiro, mas pensamos em fazer um canteiro de temperos.